Resumen

HOLA

O artigo analisa a imigração de bengalis para o Sul do Brasil. É um fluxo imigratório recente, mas que chama muito a atenção da população autóctone em razão de sua especificidade, de serem confundidos como indianos, de terem se deslocado de tão distante e optado para migrar ao Brasil. A pesquisa busca dar ênfase a essa migração como sendo expressiva dos fenômenos da globalização, ou seja, sem vínculos histórico-culturais entre os dois países. Através de pesquisa de campo e entrevistas, conclui-se que são imigrantes que estão inteiramente inseridos no mercado formal de trabalho, para além do horizonte laboral não há vínculos ou processos de integração social, enfrentam inúmeros limites, principalmente no tocante ao domínio da língua, compreensão dos processos culturais e de sociabilidade.

Introdução

O Brasil, nas últimas décadas, vem demonstrando ser um país emergente nesse campo migratório contemporâneo em razão de seu amplo território, de pretensões de fazer parte em instâncias políticas de representação internacional, de sua expressão econômica na América Latina, etc. Segundo dados disponíveis, em 2017, havia mais de um milhão de imigrantes legalizados no país, grande parte era da América Latina. Porém, o governo havia concedido o status de refúgio, até então, para somente em torno de dez mil, numa demanda de mais de noventa mil. Desde o início do século XXI, entraram no país em torno de oitenta mil haitianos; oito mil africanos (em particular senegaleses e angolanos), mais de quatro mil bengalis, quatro mil chineses. Entre janeiro de 2017 e julho de 2018, havia entrado mais de cento e cinquenta mil venezuelanos. Em contrapartida, o país registrou uma grande emigração de brasileiros nos últimos cinco anos: para o Japão, mais de trinta mil, para Portugal em torno de vinte mil e Canadá mais de dez mil. É importante frisar que os dados são imprecisos em razão da falta de instrumentos efetivos de registros, muitos saíram e retornaram, outros se deslocam por amplas fronteiras do país, tanto para entrar, quanto para sair, sem um maior controle e registro.

Para além dos números e dos limites de registros e estatísticas, as migrações internacionais recentes para o Brasil vêm se tornando pauta de muitas manchetes midiáticas (jornais e televisão), polêmicas, discussões acadêmicas, jurídicas e políticas, manifestações sociais em torno de múltiplas questões. Em razão disso tudo, após muitas discussões, viabilizou-se a constituição de uma nova legislação imigratória em 2017, que é criticada por alguns grupos e defendida por outros. Nesse sentido, há ainda múltiplos processos de adaptação e regulamentação. Porém, não há dúvida de que a imigração se tornou um tema premente, presente em múltiplas esferas da sociedade (Tedesco, 2018).

Na realidade, a imigração no Brasil tornou-se um fato social de expressão e passou a demandar informações, conhecimentos, opiniões e tomada de posição da população. Quantidade de fluxos, origem étnica de imigrantes, nacionalidades, formas de deslocamentos, legislações, causalidades e consequências, filiações religiosas, dentre outros aspectos, estiveram e continuam na centralidade desse fenômeno. São migrações que se diferem, em alguns âmbitos, das mais antigas e que marcaram a história e a reocupação do território brasileiro do século XIX até meados do século XX (Tedesco e Kleidermacher, 2017). Em quase toda a história de imigração no Brasil, a esfera laboral esteve no centro das intenções dos sujeitos que a dinamizam, porém, não se desvincula de outros horizontes, em particular do religioso e do familiar (Tedesco e Trindade, 2015).

Além de uma série de diferenciações do fenômeno contemporâneo das imigrações, há cenários expressivos de uma dinâmica do sul-sul do mundo que está viabilizando grandes fluxos populacionais. Nesse sentido, países em desenvolvimento também estão absorvendo contingentes migratórios internacionais, fato que não é mais exclusividade de países ricos, com grande concentração de capitais e pouco de população. Não se pode mais olhar as mobilidades populacionais de um país para outro sem ter presente o cenário de origem, as causalidades e as situações que as norteiam. Emigração e imigração são dois fenômenos interligados (Martes e Soares, 2006; Sayad, 2008) e os atuais imigrantes, nesse cenário de globalização tendem a dimensionar esse processo ainda mais (Tedesco e Kleidermacher, 2017).

Características gerais do objeto de pesquisa e problematização

Nas últimas décadas, o Brasil vem recebendo populações de várias nacionalidades, credos religiosos e continentes. Imigrantes de Bangladesh são uma dessas populações; são pouco conhecidos, chamam a atenção por isso, estão concentrados apenas em alguns municípios do centro-sul do país e atuam exclusivamente no mercado formal de trabalho.

Como falamos, bengalis formam um contingente imigratório pouco visível, a maioria trabalha em empresas do setor frigorífico, redes do comércio atacadista, construção civil, pavimentação asfáltica, dentre outros espaços de menor expressão numérica.

Dados estatísticos da Polícia Federal de Passo Fundo indicavam, em 2013, a presença de mais de 1000 bengalis na região norte do estado do Rio Grande do Sul, tendo Passo Fundo como epicentro. Informações posteriores obtidas junto à Associação Muçulmana de Passo Fundo indicavam que, em 2016, havia em torno de setecentos; os dados mais recentes pesquisados em matérias de jornais regionais que tematizaram sobre o grupo em questão e, também, junto a empresas que possuem significativo contingente de bengalis, acredita-se que haja em torno de seiscentos (Tabela 1).

Segundo dados da Polícia Federal, houve em 2014, registro maior de entrada no Brasil de bengalis, possivelmente em razão das eleições do final de 2013 no seu país, a qual produziu muitos conflitos e, consequentemente, emigrações.

Porém, sempre enfatizando que esses dados são relativos em razão da inexistência de um processo mais efetivo de controle e registro, bem como de migrações, retornos e reemigrações para outros países. Portanto, os dados apresentados são meramente para efeito exploratório, ou seja, para termos uma ideia apenas do fenômeno.

Obtivemos informações junto a suas lideranças religiosas e/ou que estão há mais tempo nos dois locais de pesquisa (em particular, com mais ênfase em Passo Fundo), que muitos podem ter retornado ao seu país de origem, ou emigrado para Inglaterra, alguns para países do Mercosul como a Argentina, também, possam ter ido para os Estados Unidos, porém, há outros que chegam. Nesse sentido, há uma dinâmica de mobilidade e redes que se constituem entre eles e que viabilizam translados, mobilidades internas, novas migrações internacionais, etc. Em matéria publicada em 2014, pelo jornal O Nacional de Passo Fundo, eram mais de quinhentos bengalis que haviam carteira assinada somente em dois setores de atividades do município: frigoríficos, em particular nas atividades de abate regular e na forma Halal, bem como na construção civil. Como já falamos, os dados são imprecisos, não há um órgão que tenha os dados atualizados por razões de migrações internas, de várias formas de entrada no país, de obtenção de vistos diferenciados, de terem saído do país, etc.

É uma imigração recente para o Brasil. Em 2011, houve pela primeira vez registro de solicitação de refúgio de bengalis no país, num total de 74; em 2012, foram 280, em 2013, 1830. Portanto, é uma imigração recente. Ela é fruto de fenômenos ligados à globalização, ou seja, seus mecanismos de informação, pois não há relações históricas, culturais e nem acordos governamentais entre os dois países. Há total desconhecimento prévio sobre essa nacionalidade na sociedade de destino a ponto de serem confundidos como indianos; é uma migração que vem se processando por indivíduos isolados e não de famílias inteiras; de uma longa distância e percorrida por caminhos complexos, perigosos e constrangedores, como veremos mais adiante, os quais, em geral, vão do Equador, passando pelo Peru, Bolívia e entrando ao Brasil em sua parte norte ou pelo centro-oeste. Como nos disse um entrevistado:

Desse modo, frente a esse novo quadro que está caracterizando o Brasil e a região sul em particular, a intenção da pesquisa é a de compreender alguns dos processos sociais, culturais e econômicos que estruturam a vida como imigrante em dois municípios onde sua presença é sentida em razão da existência de grandes redes frigoríficas que exercem a atividade de abate Halal, os quais são Passo Fundo (no estado do Rio Grande do Sul) e Marechal Cândido Rondon (no estado do Paraná).

Desse modo, queremos entender os motivos que os levaram a migrar para o Brasil, para esses municípios em particular, bem como a sua organização de vida social e laboral, seus rituais de expressão religiosa e de convivência grupal, bem como suas dimensões transnacionais e de idealização nesse espaço de destino. A pergunta central é: como e por que esse grupo migrou para o Brasil e para esses municípios em particular e, quais são seus elementos característicos?

Mapa 1: Localização dos dois municípios de nossa pesquisa no sul do Brasil

Aspectos metodológicos

Não tínhamos informações prévias sobre esse grupo de imigrantes, bem como não conseguimos encontrar nenhuma produção acadêmica sobre eles. O que conseguimos foram algumas notícias de jornais em nível de país e, em termos regionais, no sul do Brasil Para nós, esse grupo, essa nacionalidade, apresentou-se totalmente nova e desafiadora.

Para efetivarmos a pesquisa, fomos nos cercando de bibliografias, muito esparsas e, em grande parte, de língua inglesa, contatando informalmente com imigrantes em suas casas, mediadores religiosos, em particular, no espaço da Mesquita de Passo Fundo em sextas-feiras e domingos pela parte da tarde, em empresas (frigoríficos e atacados), entrevistando empregadores e funcionários do setor de recursos humanos. Isso tudo, aos poucos, permitiu-nos incorporar alguns referenciais sobre eles e fomos constituindo uma rede de interlocutores. Portanto, nosso referencial básico de pesquisa foram as entrevistas com 32 bengalis em momentos variados. Um espaço que nos foi concedido maior contato foi em empresas frigoríficas, em particular, as de abate Halal de frangos, espaço esse em que os trabalhadores precisam ser adeptos ao Islã e, trabalham uma hora e descansam outra em razão da intensidade da atividade manual. No período de descanso, foi-nos concedido contatar com alguns imigrantes e efetuar entrevistas. Essas giravam em torno de eixos norteadores como os motivos que os levaram ao Brasil e ao município, as redes que foram se constituindo, a sociabilidade no espaço de destino, a dimensão da integração e do campo religiosos, os limites e enfrentamentos. Fomos organizando um acervo de interlocutores; muitas respostas se repetiam em razão da generalidade dos processos desenvolvidos no local de destino.

Nossos interlocutores não passaram por nenhum tipo de escolha ou recorte; entrevistamos os que nos foram sendo apresentados por empresários ou por bengalis que nos informavam locais de moradia e os telefones de conhecidos seus, os quais fomos visitar. Portanto, se houve alguma seleção foi efetivada pelos informantes anteriores. As entrevistas foram feitas diretamente por nós, com eixos norteadores informados no parágrafo anterior. O número de 32 deu-se em razão das possibilidades de contato que tivemos, bem como das respostas que se repetiam e que atestavam generalidades entre os entrevistados. Dos 32 interlocutores, não houve nenhuma mulher; houve um momento de entrevista em que uma brasileira, esposa de bengalis, esteve presente e, de uma forma ou de outra, participou do diálogo, porém, não há no presente texto fragmento de narrativa sua.

Para a produção do presente texto, não identificamos os entrevistados, apenas indicamos com o número da entrevista. Estruturamos um amplo acervo de informações, histórias de vida, algumas entrevistas mais aprofundadas, muitos gráficos e tabelas, etc., os quais, em razão do curto espaço de um artigo, não será possível evidenciarmos.

Estruturamos o texto, primeiramente analisando alguns aspectos do quadro geral da imigração de bengalis no Brasil, posteriormente, desmembraremos alguns tópicos sintéticos em torno da regularização, das dinâmicas do trabalho, dos vínculos familiares, das incertezas, enfrentamentos e idealizações que a realidade de imigrantes no Brasil produz.

Aspectos do quadro geral da imigração de bengalis para o Brasil

Bangladesh é um país pequeno, equivalente ao estado de Roraima no Brasil; porém, possuía, em 2017, uma população de 167.000.000, dividida 50,6% homens e 49,4% mulheres. Há uma concentração da população em algumas cidades, em particular, na sua capital, Dhaka. É um país de grande diáspora migratória há várias décadas (Della Puppa, 2013). Segundo esse autor, a emigração se tornou um importante recurso econômico para as famílias e para o país também. Em 2016 havia mais de oito milhões de migrantes fora do país; esses colaboravam com mais de 11% do produto interno bruto (PIB) (Industrial Global Union, 2016). Há políticas públicas de incentivo à emigração e de gerenciamento de recursos provenientes de países de destino dos fluxos, ou seja, secretarias de governo encarregadas de mediar e gerenciar as remessas financeiras de emigrantes.

Ainda que seja um país de constituição relativamente recente, possui um histórico de PIB em crescimento. Segundo dados do Banco Mundial, em 2015 o país se posicionava no 45º posto mundial em termos de PIB. Em 2016, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava para 2017 um crescimento de 7,1%, sendo um dos países de maior crescimento no período. Os elementos desse crescimento se concentram na indústria do vestuário (segundo maior produtor de confecção têxtil do mundo), na produção do arroz, chás e da juta (Industrial Global Union, 2016). Porém, não obstante esse crescimento, situa-se como um dos países mais empobrecidos do mundo, com profundas diferenciações econômicas e problemas de ordem ambiental, em particular, grandes enchentes que devastam regiões inteiras em determinados períodos do ano, fato que vem provocando forte êxodo para outras cidades. As desigualdades sociais e econômicas são gigantescas, em 2012, mais de 30% da população vivia abaixo da linha da pobreza; em 2017, em torno de 40% da população estava desempregada ou subempregada, ganhando em torno de 1,5 dólar/dia (Gardner, 2018, p. 63).

O ano de 2013 foi conturbado politicamente e resultou no boicote de partidos da oposição às eleições. A Organização das Nações Unidas (ONU) considerou as eleições pouco confiáveis devido à baixíssima participação dos cidadãos; também aconteceram prisões generalizadas de membros da oposição, violência exagerada e greves por parte da oposição. Os conflitos se estenderam por todo o país, perseguições e assassinatos perpetrados por agentes do governo incentivaram ações terroristas e, para muitos, foi decisivo para emigrar para outros países, dentre eles o Brasil.

Porém, as causas que moveram esse contingente para o Brasil, como já falamos, não possuem definição precisa, estão no universo das novas rotas que as informações promovidas pelos fenômenos da globalização permitem, bem como a performance econômica do país na primeira década do século XXI, as competições internacionais nesses últimos anos (Copa do Mundo e Olimpíadas), os vistos humanitários concedidos aos haitianos, oportunidades políticas, ou seja, governos com maior sensibilidade social e pleiteando espaços internacionais nas agências macro estatais em nível mundial (em particular, maior presença na ONU), dentre outras, podem ser colocadas como facilitadoras desses processos.

Os imigrantes bengalis não possuem uma homogeneidade nas decisões de emigrar, na situação financeira, nos trajetos que os conduziram ao Brasil, nas inserções na sociedade de destino, nos processos laborais e sociabilidade e de intenções de permanência ou não (Tabela 2). Por isso, torna difícil uma apreensão que dê um tom genérico em todos os campos e/ou itens relacionados à nossa pesquisa. As causas podem estar nos horizontes econômicos (empobrecimento, excesso de população em espaços urbanos reduzidos, ausência de emprego e renda), na esfera política (golpes de Estado, repressão política em razão de tomada de posição partidária, principalmente nas eleições de 2013, etc.), na história e trajetória longa de emigração no país, bem como de muitas famílias dos que estão inseridos no território brasileiro.

A busca por um espaço de trabalho revelou ser a tônica de todos os entrevistados. A escolha pelo Brasil foi bem diversa. Essa se move por representações que vão desde a imagem de um país grande e, por isso, teria trabalho, interesse pelo desconhecido, informação de que havia emprego, viabilizada por parentes e conhecidos que já residiam no Brasil, dentre outras questões. Todos fazem questão de enfatizar a dificuldade de encontrar emprego no país de origem, e que alguns já tentaram em outros países, em particular os países de cultura árabe (Catar, Emirados, Dubai, dentre outros), ou, então, a Europa. Porém, o Brasil estava no horizonte das esperanças, das promessas e do desconhecido.

Grande parte dos entrevistados de uma forma mais sistemática não nos disseram com precisão o que os levou a decidir emigrar para o Brasil, muitos informam que foram informados e auxiliados por quem já estava no país, que imaginavam que, estando no Brasil, seria mais fácil ir para os Estados Unidos, etc. Outros que foram agências de viagem de Dhaka (capital do país) que facilitou as informações, os valores das passagens, bem como os intermediadores, os quais possuíam ramificações que iam dessa cidade, passando pela Argentina, Equador, Bolívia, Peru e Brasil. Vários entrevistados disseram que, em cada cidade que paravam, nos vários países e nos hotéis previamente definidos, havia um representante da rede de intermediação. O desembolso para chegar até o Brasil, que variou de U$ 10.000 a 14.000.

Aproximadamente, 90% dos bengalis emigraram do meio urbano; a capital Dhaka foi a mais expressa, porém, conversando mais longamente e sem a preocupação de preencher o questionário, alguns informaram a cidade de origem da família (de Sylhet, por exemplo), sendo eles, somente migrantes para a capital, inclusive alguns possuem sua família residindo em pequenos vilarejos ainda com características rurais, agrícolas. É importante enfatizar que há uma cultura emigratória em Bangladesh. Em razão do alto contingente populacional e a redução de empregos nas cidades, muitos bengalis optam desde jovem pela emigração. Por isso, vários dos que estão no Brasil já passaram por outras experiências migratórias.

A maioria dos entrevistados possui um nível alto de escolaridade. Cursos ligados ao horizonte econômico, ao comércio e ao design foram os mais citados no conjunto dos interlocutores. O investimento na educação é considerado uma maneira de galgar mais facilmente mobilidade social e conseguir melhores empregos. Percebemos que não são os mais empobrecidos que emigram para outros países, o Brasil em particular, porque, para isso, há a necessidade de um significativo desembolso financeiro. Isso serve também para imigrantes de outras nacionalidades (Kawamura, 2003; Martes, 1999; Soares, 2002). Em geral, os que decidem por essa empreitada são jovens ou pessoas de idade mediana que possuem certo capital cultural e financeiro no país.

A maioria dos bengalis entrevistados possui uma faixa etária entre vinte e trinta anos; é a idade laboral por excelência. São os mais jovens que emigram, buscam melhorar de vida. Constituir família e a necessidade de provê-la, às vezes, os obriga a sair do país em busca de possibilidades de exercer a função de provedor e de chefe da nova unidade familiar. Os entrevistados nos disseram que muito raramente as mulheres solteiras emigram. Em geral, as que emigram são esposas em razão das possibilidades de reagrupamento familiar, ou seja, juntarem-se aos maridos quando a legislação permitir. Como já informamos, em nosso quadro de interlocutores, não havia nenhuma mulher, não por termos produzido algum tipo de recorte metodológico, mas, sim, por não termos encontrado nenhuma em momentos de entrevistas e nem obtido informações de sua presença, a não ser a esposa de um deles, que é brasileira.

De todos os entrevistados, apenas seis emigraram sozinhos, ou melhor, saíram de Bangladesh com ninguém, mas, nos vários trajetos percorridos por países da América Latina, fronteiriços ao Brasil, encontraram outros haitianos, senegaleses, ganeses e mesmo bengalis e, juntaram-se para entrar no país de destino. Os de Bangladesh faziam parte de uma cadeia de relações e situações que foram sendo desenvolvidas quase que diariamente pelos canais de mediação que interligam e se vinculam a vários países dos trajetos indicados. Nem todos os bengalis passaram pelas mesmas estradas até chegarem ao Brasil. Há diversidades de caminhos, muitas, possivelmente, em razão do valor pago, ou de outras situações conjunturais e políticas de cada país, ou até de estratégias de atravessar fronteiras por mediadores que viabilizaram o translado etc.

A escolha pelos municípios de Passo Fundo e Marechal Cândido Rondon deve-se às oportunidades de trabalho em frigoríficos, ou seja, informações obtidas sobre vagas no setor de abate Halal. Alguns já tinham residido anteriormente em São Paulo, Brasília, Cuiabá, dentre outras, e não se adaptaram lá. Dois informaram que “aqui o aluguel é caro, mas é mais barato do que em São Paulo; lá tu precisas ter muito dinheiro, senão não sobra nada” (Entrevista 8).

Foto 1: Rua do centro de Dhaka, capital de Bangladesh

A maioria (25 entrevistados) possui visto de permanência limitado entre 2019 e 2022. Encontramos quatro com vistos até 2023, um até 2024; dois não responderam, porém, sete necessitam renovar o visto em 2019, fato que os preocupa em razão do desemprego no país, da resistência do governo em conceder novos vistos, das eleições que se desenham e o fato de um candidato expressar forte ojeriza aos imigrantes, etc.

Dos 32 entrevistados, cinco informaram que entendiam um pouco a língua portuguesa antes de emigrar em virtude de terem sido imigrantes em Portugal e/ou Espanha. A maioria informou que não sabia nada e que isso foi, nos primeiros meses, um empecilho, principalmente no trabalho e nas questões ligadas à habitação. Praticamente todos informaram que a língua é fundamental para “tentar alguma coisa melhor” (no trabalho); a maioria enfatiza que, mesmo já estando há alguns anos no país, a língua continua sendo um limitador.

O contato com familiares é intenso, quase que diário; dois deles informaram que o fazem uma vez por semana. A dimensão transmigrante se expressa pelos constantes contatos. Essa é uma questão que caracteriza a imigração contemporânea do mundo globalizado e das tecnologias da informação (Barau, 2007). Estar aqui e estar lá ao mesmo tempo permitem vidas intercambiadas em espaços múltiplos, fazer parte de decisões familiares, exercer funções paternas etc., porém, a biespacialidade ou a binacionalidade não lhes garante participação plena em nenhuma dessas.

A maioria dá ênfase às tensões e dificuldades vividas pela experiência do translado. Dizem que tiveram muito mais problemas para chegar do que até então permanecer. Os desembolsos financeiros foram muito altos, em média de U$ 12.000 a 15.000. Não imaginavam que custaria tanto, pois a maior parte desse montante fez parte das práticas de extorsões por militares, agentes de fronteiras, taxistas e membros das redes de mediação que os faziam ficar por semanas em hotéis para além do previamente prometido e/ou acordado e a agilização do processo só acontecia mediante mais pagamentos.

Entrevistados revelam histórias de grande temor, constrangimentos, promessas não cumpridas, abusos de poder de policiais de fronteira e de mediadores que os orientavam e conduziam nos trajetos. Além dessas questões, os imigrantes enfatizam os limites da língua, dizem não entender como funcionários de fronteira, de hotéis, motoristas de táxis, funcionários de bancos, chefes de setores empresariais onde trabalham não falam inglês. Isso os impediu de ter mais clareza sobre uma série de questões, de serem compreendidos e de terem mais segurança e tranquilidade. Alguns espaços, principalmente os de paradas em hotéis, pousadas e outros alojamentos, viabilizavam contatos e encontros entre vários imigrantes e de nacionalidades diversas que estavam a caminho do Brasil ou já no seu interior.

O envio de remessas de dinheiro para familiares é prática comum entre os entrevistados, em média de 40 a 50% do salário. Pode ser quinzenal ou mensal, dependendo da forma de pagamento recebido em seu trabalho específico. Enfim, essas são algumas características, de uma forma genérica, que expressam a organização da vida dos imigrantes entrevistados nos dois espaços de pesquisa. Nos itens a seguir tentaremos refletir um pouco sobre esses processos todos.

Regularização e incertezas

A busca pela regularização é uma das maiores tarefas do imigrante que chega ao país. Reclamações, polêmicas, falta de informações e de infraestrutura, despreparo dos funcionários dos órgãos públicos responsáveis pela questão, legislação ambígua, concessões de vistos sem parâmetros claros e objetivos, dentre uma série de outras questões que vêm marcando essa realidade, em particular no sul do país. É um espaço ainda com pouca experiência do fenômeno, porém, vem ocasionando discussões, manifestações e polêmicas no meio social.

Essa realidade de incertezas de normativas e de regramentos da condição legal dos imigrantes faz deles também sujeitos sem pontos de ancoragem jurídica e política. O regramento da vida do imigrante passa ser o critério para legitimar a permanência no país num cenário de legislação indefinida. Para ser declarada a situação de refúgio, há necessidade de comprovação de perseguição em algum âmbito (religioso, político, racial, dentre outros aspectos), fato que, no presente momento, para bengalis, se tornou muito difícil, pois houve, em período recente, certa repressão política aos perdedores da última eleição para presidente, porém, “no Consulado de Bangladesh, eles não estão aceitando esse argumento. Então, fica a cargo do governo brasileiro conceder vistos para nós […]. Isso é ruim, porque uns ganham, outros não” (Entrevista 13).

Os bengalis narram verdadeiras peripécias para chegarem ao Brasil, alguns demoraram mais de sessenta dias da saída da cidade de origem até migrar para Passo Fundo. Tempo que se tornou elástico por causa, como já mencionamos, das redes mafiosas, das garantias ou não de saída de um local para outro, da disponibilidade de recursos disponíveis e das aceitações das extorsões financeiras, da situação governamental no Brasil e suas consequências, das políticas migratórias do momento, da intensidade ou não dos fluxos.

Outro entrevistado comenta:

Outros diálogos narram situações de intenso temor e ameaças. Além das extorsões, eles passaram por locais inóspitos, perigosos, sem comunicação, etc. “… não dava para registrar, ou porque te tiravam os celulares, ou porque te ameaçavam”; “nos orientavam em meio a matas, noite à dentro por muitas horas; fizemos acampamentos por três noites no meio das matas, ninguém sabia onde estava”; “quando você pisa no Brasil, eles te fazem ligar para os familiares pagarem a viagem”; “de um país para outro são pessoas diferentes”; “e eles te fazem esperar para dar um grupo, não muito grande porque tem de viajar de pequenos ônibus ou de carro”; “eu fiquei mais de dez dias entre um país e outro, só para o Equador, entre uma fronteira e outra, a gente ia e retornava”; “todo mundo fica desesperado e com muito medo”; “Ninguém te dava explicação, só te mandavam confiar e ficar quieto; não dava para registrar nada do celular; um haitiano apanhou muito porque tentou, escondido, tirar foto, apanhou na frente da mulher […]. É triste passar por tudo isso e saber o quanto meu pai pagou para mim vir até aqui […]. Hoje eu lembro”; “… eles [Polícia Federal] pensaram que eu era boliviano e queriam documentação da Bolívia […]. Eles não sabiam onde ficava Bangladesh. Eu parecia que estava em outro planeta (risos!)” (Várias entrevistas).

As histórias das trajetórias da emigração são múltiplas, todas carregadas de realidades problemáticas, temerosas e de total insegurança. Praticamente todos os entrevistados enfatizam dificuldades, desconhecimento prévio dessa realidade, múltiplas extorsões, promessas não cumpridas por agências de viagens e intermediadores ainda no país de origem, dentre uma série de outros elementos. Um deles assim se expressa: “Não aconselho ninguém a vir para cá desse jeito” (Entrevista 11).

Eles enfatizaram que necessitarão trabalhar muitos anos para recuperar esse dinheiro, e, que, por isso, contraíram dívidas e dádivas (obrigação moral) no seu local de origem, ou seja, ao serem obrigados a “dar dinheiro”, incorporaram outras dívidas que necessitam ser compensadas com recursos financeiros e, para isso, o trabalho passa ser a única condição dessa possibilidade. “… preciso muito mais de um ano trabalhando para pagar o que me custou para vir até aqui; eu e outros também vendemos muita coisa lá para ter esse dinheiro”; “… meu tio me ajudou para vir para cá; tenho agora de pagar para ele, mas para isso preciso trabalhar mais; aqui o custo de vida é alto, lá eles não entendem isso” (Várias entrevistas).

Esses processos que produzem realidades complexas, perigosas, constrangedoras nas viagens dos imigrantes para chegar ao Brasil são decorrentes das dificuldades em conseguir o visto legal para viajar ao país. Isso os obriga a se inserirem nessas redes transnacionais e mafiosas (os ditos “coiotes”) que viabilizam trajetórias alternativas que se ligam com a capital do país de saída com o Equador, a Bolívia, e alguns com a Guatemala, Buenos Aires, até chegarem ao Acre, fronteira norte do Brasil. Eles revelam também que nesse mundo global nem todos têm livre trânsito; há bloqueios e dificuldades para alguns, nem todos os países possuem acordos que permitem obter o visto com facilidade.

Todos emigraram sem ninguém das suas famílias. Alguns informaram que já existem bengalis com família no Brasil, outros casaram com brasileiras (no nosso acervo de entrevistados, como já informamos, há apenas um caso). Na nossa pesquisa havia três com família reagrupada, outro casou com uma brasileira e que reside numa casa com ela. A maioria dos maridos entrevistados manifestou interesse em permanecer por vários anos no Brasil e, para isso, deseja reagrupar a família, se não toda, uma parte, mas, para isso acontecer, será necessário mais tempo de permanência, mais garantias de trabalho e de condição de permanência no país (visto de permanente ou de temporário, mas de tempo relativamente longo). Alguns disseram que ainda “precisam compensar os custos de viagem”, outros acham que o custo de permanência da família no Brasil aumenta demais as despesas (aluguel adequado, passagem etc.), além de deixar a família paterna ou materna sem proteção e auxílio financeiro.

Autores enfatizam que as famílias de imigrantes se alargam mais quando há saída de um homem casado e pai (Scidà, 2001), faz parte da cultura ter vínculos interpessoais alargados e agregados. Segundo eles, a esfera religiosa seria melhor vivenciada com a presença de toda a família, assim como os valores culturais que na distância e em separações “fica bastante difícil”. A emigração coloca à prova a identidade masculina e de pai/esposo. Essa realidade se soma às dificuldades socioeconômicas dos que ficam (Daguerre, 2010).

O fato de permanecer muito tempo distante da família leva a que se alterem muitos processos consolidados na cultura social do grupo e no universo familiar. Por isso, ao amenizar a necessidade financeira dos seus, o pai reafirma sua autoridade e continua a ganhar afeto e consideração (Mazzetti e Ceschi, 1996). Além da distância, há o problema do desemprego. Estar sem remuneração, para um bengali casado, se torna catastrófico em termos econômicos, assim também na simbologia dos papéis de gênero no interior da família e no meio social e parental. Os homens se sentem desvalorizados; colocam-se em xeque a educação e a socialização patriarcal, a submissão feminina aos maridos (Gonçalves, 2008).

Trabalho, família e identidade social

Os entrevistados dizem claramente que há muita dificuldade de encontrar emprego no seu país, que há uma concentração da população na capital (Dhaka) em razão da presença de grandes fábricas de tecido (roupa pronta), porém, o contingente é muito grande, “abre uma vaga, tem duzentos que lutam por ela, lá é assim […], não há trabalho” (Entrevista 1), disse um entrevistado justificando a inevitabilidade da decisão de emigrar. Alguns, inclusive, emigram para tentar adequar o título universitário a um espaço de trabalho que no seu país se tornou difícil. Porém, como um dos entrevistados enfatizou:

Alguns entrevistados disseram que encontraram facilmente trabalho em frigoríficos, mas em outras atividades não foi tão fácil; “hoje está mais difícil nos frigoríficos também; eles estão demitindo” (Entrevista 6). Outro bengali revelou que ficou quase seis meses sem trabalho efetivo, conseguiu, sim, trabalhar num restaurante alguns finais de semana e numa padaria para descarregar farinha e outros trabalhos temporários.

Ser um migrante, para um bengali, não é apenas um deslocamento físico de seu território nacional; é expressão de um amplo horizonte de significados, relações, vínculos e obrigações. Migrar é visto como uma obrigação familiar que se reproduz entre gerações e gêneros (Gonçalves, 2008). Elementos sociais, familiares, identitários, de realização e ambição individual, dentre outros de cunho econômico, estão nesse cenário do deslocamento geográfico (Pompeo, 2004). Há expectativas familiares, assim como a construção de papéis de gênero se concretiza com mais clareza quando da migração, em particular do homem/marido/pai (Della Puppa, 2013). Com isso, há maior visibilidade pública, ou seja, “ser olhado diferente, mas, também, com mais obrigação com a família”, diz um entrevistado (Entrevista 11). Outro bengali que estava junto na entrevista acrescentou: “Nós estamos aqui, mas estamos para a família, ela nos cobra todo o dia em tudo”. Esse “em tudo”, ao ser indagado para uma melhor precisão do significado, disse que há dúvidas e receios sobre a vida cotidiana deles no Brasil, em particular no campo afetivo (Entrevista 7).

Viver distante da família, num país ocidental, pouco conhecido, de parcas e distorcidas informações para eles, de representações da violência, das paisagens de praias, carnaval etc., pode produzir suspeitas e temores para familiares que permanecem em Bangladesh. Um imigrante disse que é preciso informar todo o dia que não foi assaltado, “que não há praia e nem mulheres de biquíni na rua aqui na cidade (Passo Fundo) […] e que eu também nem conheço praia aqui”. Outro, que casou com uma brasileira, disse que já faz mais de um ano e ainda não está bem com a família; “precisa tempo”! O referido disse que tudo ficou difícil em razão de que casou antes do irmão mais velho, prática não aceita pela tradição religiosa, e sua mãe desaprovou (seu pai é falecido), não houve acordo entre as famílias. Quando ele vai herdar, sua mãe, irmãos e tios não saberão quanto irá ganhar, pois não houve um acordo de quanto a esposa carregaria consigo, “que a mulher é de outro país, católica, agora é muçulmana, talvez, com isso, com o tempo, pode haver aceitação”. Ele informa que fala raramente com a família no país de origem e que não pensa em viajar para visitá-la enquanto não se acomodarem as contraposições do seu casamento.

Há temores e suspeitas de infidelidade, mas há também cobrança no envio de maior quantidade possível de dinheiro, “lá depois eles dividem para mais gente da família […], não vai só para minha esposa e filha” (Entrevista 11). Há obrigações amplas, de família ampliada, compromisso assumido com os pais da esposa, com quem fica auxiliando ou tem propiciado algum recurso econômico para a emigração. Há também o temor do desleixo no tocante às obrigações e ritualidades religiosas nos limites de espaços, de tempo, por estar num cenário de grande secularização, influência ocidental e de tradição católica de pouca efervescência religiosa.

No interior da família, o emigrante passa ser visto como alguém com probabilidade de êxito, de referência social, que incorpora no horizonte distante as obrigações familiares, sociais e morais de distribuição de seus ganhos, auxiliando a família, amigos que lhes favoreceram no ato da saída (empréstimos de dinheiro) e/ou estão cumprindo papéis e funções familiares no espaço de saída (Ma Gassouba, 1966). De forma indireta, a família se torna transnacional, com ligações flexíveis, estratégias, de dispersão para aproveitar oportunidades que os espaços de destino propiciam. Vista nessa ótica, a imigração revela indivíduos em ligações constantes, em redes informais e afetivas, com laços fortes que revelam obrigações e intenções profundas e significativas (Siddiqui, 2004). Há uma lógica de afetos entre os que partem, os que ficam, os que exercem a mediação na circulação entre os dois, ligações parentais, proximidade identitária, etc. O território afetivo muda, ou seja, há um movimento complexo entre lugares e pessoas (Simon, 2008). O telefone territorializa as ligações no espaço de destino e liga as famílias de uma parte a outra das fronteiras (Simon, 2008). Há uma redistribuição do papel de chefe de família entre pais e filhos; pais em países diferentes e filhos no lugar paterno, principalmente os de maior idade (Barau, 2007).

A emigração passa ser uma saída para a reconfiguração dos papéis, que serão reincorporados pela dinâmica do dinheiro e não tanto pelas relações de copresença cotidiana (Della Puppa, 2013). As famílias passam a contar com o dinheiro dos imigrantes. Trabalhar intensamente para ter recursos e enviar a familiares e/ou para empreender em algum momento, correlacionam-se com a moral familiar e com o dever de família (Storato, 2011). Nessa condição, o imigrante se transforma num sujeito econômico transnacional que circula por meio do dinheiro, de seus vínculos, da ponderação de seus gastos, investimentos, consumos, poupança entre um lugar e outro. Um entrevistado disse que fica dividido, pois quer fazer algum capital “aqui no Brasil, mas me cobram a todo o momento dinheiro para lá”. Ele reagrupou sua esposa e, em tese, reduziu as obrigações de envio de dinheiro, porém, como ele diz,

Essa dimensão das remessas, não obstante, é algo do campo material e objetivo, compõe e carrega consigo horizontes subjetivos do imigrante que envolve o campo familiar, afetivo, de status, da dádiva familiar, de parentesco e seu vínculo com o local de origem (Quattrocchi, Toffoletti e Tommasin, 2003). A lealdade do emigrante em relação à sua família se revela nesse âmbito. A presença do dinheiro viabilizado pelo emigrante estimula a emigração de vários outros e, com isso, incorpora efeitos multiplicadores. As remesses expressam a identidade atual do emigrante que se vislumbra no horizonte do protagonismo de sua ação e de seu duplo pertencimento territorial. O status social do imigrante ganha performance positiva em relação aos que ficam, pois é ele que dá garantias de sobrevivência ao núcleo. Os que ficam buscam dar garantias de manutenção da família como núcleo central da reprodução social, cultural, parental, religiosa e genealógica.

A migração movimenta essa associação e vínculos afetivos e sociabilidades pragmáticas. O imigrante tenta concretizá-las com todas as forças possíveis, sujeitando-se, muitas vezes, a um cenário oposto do idealizado no ato de emigrar (Gardner, 2018). Não se ignora que os imigrantes possuem, por sua natureza, uma identidade deslocada, pouco conhecida, com status social baixo, inserido nos graus mais inferiores da hierarquia ocupacional e, para sair dessa situação precária, emigraram (Sayad, 2008). É pelo trabalho e pela convivência social que acreditam constituir legitimidade no interior da sociedade brasileira e regional.

Enfrentamentos, sacrifícios e redenções

Como já vimos, os imigrantes enfrentam muitas barreiras, riscos, constrangimentos, reações negativas, para alimentar a esperança de uma vida melhor (Vilela, 2011). Emigrar, para um bengali entrevistado, proveniente de uma região rural, é ter a possibilidade de consumir, “se modernizar, ter as coisas dentro de casa, ter uma casa de pedra (alvenaria)”; ter a possibilidade “de construir uma casa para os pais, outra para minha esposa e para mim na cidade” (Entrevista 16). Ele insiste nos referenciais que a modernidade ocidental tem como normais e comuns, mas que no seu país apenas os que têm recursos incorporam. “Lá tem luz elétrica para quem pode pagar, meu pai comprou geladeira, mas não consegue pagar a conta de luz” (Entrevista 16). Quem possui esses recursos são vistos com distinção. Ser emigrante é ter a possibilidade de “ser moderno” (Gonçalves, 2008), de se inserir em horizontes de consumo que dão caráter de distinção em determinados espaços de origem.

Emigrar, além de viabilizar melhores condições na unidade-mãe familiar, permite a criação de outra. Indagamos ao entrevistado que queria com a emigração viabilizar duas casas, uma para seus pais no meio rural e outra para si e a sua família (esposa e uma filha) na cidade, sobre qual das casas ele iria morar ao retornar. Ele respondeu que enquanto seus pais estiverem vivos a sua esposa deveria cuidar deles. Ao retornar, ele também deve fazer o mesmo, ou seja, mesmo tendo outra casa, é comum e de valor moral manter-se ligado à responsabilidade dos cuidados com seus pais. “Lá é diferente daqui, lá os filhos devem cuidar dos pais até a morte”. Outro bengali na entrevista comentou que “as coisas mudam lá também”, ou seja, que nem todos fazem isso e que os ricos da cidade terceirizam os cuidados com os pais, colocando-os em hospitais apropriados ou em casas geriátricas, porém enfatizou que “precisa ter muito dinheiro”. Ele reconhece que a obrigação moral dos filhos de cuidarem dos pais mantém esses confortados, e os filhos poderão exigir o mesmo de seus filhos quando na velhice. Comentou admitindo que numa casa apropriada para os cuidados dos idosos, eles teriam melhores condições médicas e de saúde em geral. “O dinheiro da gente aqui pode servir para isso também, cuidar melhor de nossos pais na velhice”. Ao final, ele fez questão de enfatizar sua importância na sociedade de origem: “Aqui não sou ninguém, mas lá sou importante […], muito do que eles têm hoje e terão amanhã é o trabalho daqui que vai permitir. […] meu pai poderá ter uma velhice melhor, assim como minha mãe” (Entrevista 31). Esse “sou importante” também se expressa no dinheiro enviado, porque está propiciando o tratamento de saúde de sua mãe.

O emigrante – probashid, como é a denominação na língua bangla –, incorpora status social (Della Puppa, 2013): “Lá eles nos olham diferente”. No entanto, é necessário manter constantemente contatos e obrigações familiares. Há tradições familiares no próprio país no tocante à emigração. Como já vimos, há mais de meio século que bengalis emigraram para a Inglaterra. A idealização e a representação da Europa e da América do Norte (Estados Unidos, em particular) materializaram diásporas do país (Gardner, 2018). Vários entrevistados comentaram que reduziu a presença de bengalis no Brasil nos últimos anos “porque alguns foram para os Estados Unidos pela fronteira com o México”. Para eles, com o Brexit, ficou mais complicado obter o visto na Inglaterra em razão disso, o dólar americano passou a ser atrativo.

Exclusões em universos migratórios na esfera do trabalho, dos ganhos, da aceitação social etc., podem ser contrapostas no cenário de origem, no horizonte familiar, no status social, no auxílio à infraestrutura do campo religioso, no capital social incorporado e que possibilita ao imigrante otimizar fatores afetivos e de aceitação social. Desse modo, sacrifícios e situações limitantes tornam-se redentoras ao mesmo tempo em espaços diferenciados.

Transgressões e individualidades

A emigração é um bem, um recurso, mas pode ser um germe que produz transgressões da identidade (Della Puppa, 2013). O guardião da família, o pai, pode perder ou afrouxar sua importância e transferir esse processo à esposa/mulher/mãe. Por isso, além de outros processos sociais, culturais e tecnológicos, a emigração pode ser produtora de muitas transformações nos referenciais simbólicos e culturais arraigados na cultura do país (Gardner, 2018).

O ato de sair do local de origem pode provocar outros deslocamentos; também distanciar o sujeito da sujeição familiar, ou ao que se opõe à estrutura de determinação da família, ao que não se conformam com situações predefinidas, ou aos que são ameaça à reputação da família, aos que não expressam legitimidade no interior do grupo de pertencimento ou na vivência comunitária (Della Puppa, 2013; Knights e King, 1994). Pode haver um vazio moral nos espaços diferenciados de imigração, romper interditos, inserir-se em processos integrativos com a sociedade maior e adentrar nesse espaço nos referenciais que eles consideram como modernos (Gonçalves, 2008). Uma estratégia que pode ser viabilizada é o casamento com autóctone, como saída para obter a cidadania e a legalização, ainda que possa ser um ato racionalizado e pensado como forma de possibilitar a visita e o retorno à sua família no país de origem.

A emigração pode se tornar uma espécie de reino das possibilidades e de vazio moral para os imigrantes, em particular de sociedades regradas pelo patriarcalismo e valores religiosos islâmicos (Gonçalves, 2008). A emigração precisa ser compensada com dinheiro e bom comportamento, pois pode-se imaginar que no estrangeiro o imigrante pode estar desenvolvendo atividades irregulares, algum tipo de trabalho que poderá desonrar a família, humilhante etc. e isso pode dificultar o casamento. No entanto, a emigração também pode ser uma forma de distanciar quem não se conforma com os modelos de organização social patriarcal, hierárquica da família, que pode ameaçar a reputação familiar por não estudar, não trabalhar, usar drogas, não participar ou desenvolver rituais religiosos, quem teve alguma falência econômico-financeira etc. (Priori, 2012).

Todavia, os emigrantes também podem, na distância, não ser tão expressivos ou com status elevado no interior da sociedade/grupo de origem e, em geral, desenvolvem atividades de baixa qualificação (Della Puppa, 2013). No espaço externo pode haver maior probabilidade de emigrantes desenvolverem atividades ilegais, desqualificadas; com isso, se essa realidade for disseminada no espaço de origem, pode produzir humilhação e vergonha à família e ao grupo religioso (confraria) a que pertencem (Foner e Alba, 2011). Há ambivalências, situações contrastantes, porém a representação e o imaginário que a emigração rompe com a imobilidade no interior do país de origem permitem a abertura para o mundo (modernidade, cosmopolitismo), transformam o status social, permitem maior emancipação do controle familiar ao mesmo tempo em que faem com que imigrantes avancem na hierarquia da família e atraiam mais facilmente parceiras para casar e para obter contrapontos de herança etc. (Eade e Garbin, 2005).

Em todas as conversas que obtivemos, a esfera familiar é sempre mencionada. Parece-nos que vivem para a família. Essa é um ator estratégico para o casamento, para o capital simbólico dos membros, no investimento migratório; em geral, casam-se com pessoas do mesmo nível social, de endogamia linguística e cultural. Um bengali, questionado sobre a possibilidade de ter mais uma mulher no Brasil, ele enfatizou que “não dá para casar com uma daqui porque a cultura é muito diferente. A família é [algo] muito séria. A gente tem obrigação de fazer uma boa família” (Entrevista 29).

Prestígio e capital social

Já abordamos que a emigração pode produzir maior possibilidade de casamentos na sociedade de origem. Dois dos entrevistados disseram que isso aumenta o status do pretendente, além de a esposa ou futura esposa também idealizar, com o tempo, reagrupar o marido no horizonte externo, imaginando, com isso, melhores condições econômicas, oportunidades de também emigrar, ir para outro país. Isso também pode facilitar o distanciamento das dimensões culturais e de seu papel no interior do grupo maior familiar, produzir a esperança que no espaço externo ocidental, em particular, os liames que produzem e reproduzem a sociedade patriarcal sejam flexíveis quando não rompidos.

A possibilidade de prosperidade econômica, de manter a família ampliada, de dar melhores condições aos filhos, de construir uma descendência com certo prestígio, tudo está na expectativa do imigrante e justificam o sacrifício empreendido (Gardner, 2018). Para bengalis entrevistados, a Inglaterra e alguns outros países da Europa, e os Estados Unidos, bem como outros países ricos, como Catar e Emirados Árabes, estão no rol dos que viabilizariam isso. No caso da emigração para o Brasil, a realidade fica um pouco mais complexa e limitada nesse sentido, pois, além da representação produzida no oriente sobre o país (carnaval, lazer, praias, mulheres bonitas, sexo, etc.), há dificuldade de agrupamento familiar, a legislação da imigração no Brasil não facilita isso. Imigrantes disseram que permanecem no Brasil porque desembolsaram muitos recursos “para chegar até aqui”, pois, ainda que aqui haja possibilidade maior de encontrar trabalho, a moeda cambiada com a deles não produz muitas vantagens, além do que “alguns produtos aqui custam mais caro do que lá” (Fragmento de entrevista com bengali, n. 6). Vários entrevistados expressam certo desencanto com a decisão ao emigrar e com a realidade encontrada no espaço de destino; enfatizam, como já mencionamos, que o salário é baixo, que há um alto custo de vida no Brasil, que sobra pouco dinheiro para enviar ao seu país e que não conseguem documentação que permita retornar ao seu país, além de a passagem custar muito caro.

Dos 32 entrevistados apenas quatro não eram casados. Um desses últimos havia uma filha nos Emirados Árabes com uma mulher do referido lugar; dois dos casados possuíam duas esposas; dos casados, 21 haviam filhos. Quase todas as esposas e filhos residem com os pais do migrante, dois apenas informaram que possuíam casa própria, porém em locais próximos à residência dos pais deles. Praticamente todos os entrevistados casados disseram que se retornarem para seu país de origem não possuirão documentação para reemigrar ao Brasil. Portanto, como um entrevistado se expressou, “pensar na mulher só de longe, não tem como trazer e nem eu ir lá me encontrar com ela” (Entrevista 26). Entrevistados enfatizam que essa situação de impossibilidade de retorno a esposa e filhos ficam numa situação de vulnerabilidade e solidão. Mesmo que houvesse condições legais para a viagem, o custo elevado da passagem, a parca poupança efetivada até então, o risco de perder o emprego e não encontrar outro facilmente no momento do retorno leva a que o plano de visitar familiares tenha um tempo mais elástico para ser efetivado.

A distância entre os cônjuges é percebida como problemática, pois compromete a unidade familiar e do casal em particular, a reputação e a honra de ambos os cônjuges podem também sofrer abalos, desconfianças, descrédito social e familiar. Entrevistados não dão tanta importância ao reagrupamento familiar, pois, além da importância da mulher/esposa no espaço da casa dos pais do emigrante, há o alto custo de ter família no Brasil, o preço elevado da passagem, a pouca esperança de permanecer muito tempo no Brasil em razão das atuais projeções limitadas no campo do trabalho e do valor da remuneração percebida. A nova legislação brasileira de imigração não é ainda clara nesse sentido, nem tão facilitadora. Há uma série de requisitos para possibilitar a emigração de membros da família para se agrupar ao membro imigrante. Os bengalis dizem que na prática torna-se difícil para eles, há necessidade de muito tempo para se viabilizar, até porque praticamente todos eles estão com um visto temporário para o trabalho, não configura refúgio, nem acordo entre os países, como é o caso do Haiti, da Síria ou mais recentemente da Venezuela.

Muitos casam antes de emigrar como exigência dos pais e por facilitar os acordos. Pela experiência histórica e familiar, alguns entrevistados disseram que quem emigra fará poucos filhos e quem sai antes de casar “depois fica difícil, pois não dá para retornar, como é o nosso caso aqui. Ninguém pensa em casar por aqui, mas, se retornar ao nosso país, daí tem de ficar lá, pois não consegue facilmente o visto para tornar para cá”. Segundo um entrevistado, “as mulheres daqui não costumam casar com estrangeiros, porém as do meu país fazem questão”; revela, para essas, segurança nas condições econômicas (Entrevista 23).

Devido à emigração ou não, a maioria dos atos matrimoniais a esposa incorpora o espaço doméstico da família do marido. Entre os entrevistados, isso foi expressão de uma realidade que os contempla. Apenas dois casados disseram que isso se deve ao fato da emigração, senão estariam residindo em espaços separados das famílias. A esposa indo para a casa do sogro permite com que ela supra o espaço ocupado por uma cunhada que casou ou que irá se casar, principalmente nos cuidados junto aos sogros na economia e nas atividades domésticas. Em contrapartida, há o amparo do grupo, a vigilância e o controle moral e social sobre a nora – esposa do filho emigrante – há o auxílio de um contingente ampliado no cuidado com os filhos do jovem casal, em particular nas questões de saúde, orientação educacional e religiosa.

As remessas financeiras enviadas pelo emigrante são distribuídas e socializadas no interior de todo o grupo; porém, a mulher perde a liberdade e autonomia de decisão nos gastos e canalizações desses recursos (Della Puppa, 2013). Em geral, é o pai do emigrante que gerencia os recursos, investindo-os, assim como os distribui. Ao mesmo tempo, a esposa do emigrante pode contar também com recursos que ela obtém com atividades laborais externas, assim também as obtidas pelos outros membros da família, a aposentadoria e/ou o salário do sogro etc. Nesse sentido, há uma maior garantia e proteção financeira ao novo agrupamento que se desenvolve no interior de um maior. Se o casal reagrupa no espaço migratório, essas relações são alteradas, pois há uma preocupação na nova constituição da célula familiar.

Na realidade, estar separado pela distância que contempla bengalis no Brasil dificulta os contatos mais efetivos para além dos viabilizados pelas tecnologias de informação atuais. Isso não é bem visto e incentivado pela dimensão religiosa, pois estar sozinho, sem a família, pode acontecer fragilidades na formação religiosa, na sequência ritualística dos valores e crenças, em razão dos limites infraestruturais e presenciais. Devido a essa realidade de distanciamento, pode acontecer redução do número de filhos, assim como a assimilação de valores religiosos de outros credos, ainda há temor da potencialização dos divórcios em razão da desritualização cotidiana do sentimento afetivo e dos laços familiares que alimentaram a decisão de casar, da infidelidade conjugal de ambos os lados, com maior probabilidade para os imigrantes. Entretanto, entre os pesos dos limites econômicos existentes no país (emprego, renda, sobrevivência familiar) e a separação de cônjuges pela emigração, esta última ganha tons de maior expressão. Se a migração for para países vizinhos, o impacto é menor, assim como se alguns deles forem para a Europa; porém, para cenários como a América do Sul ou do Norte, as dificuldades aumentam.

A produção das distâncias e das aproximações entre famílias e seus membros vai depender muito das situações específicas. Identidades se deslocam, os territórios se recompõem produzindo uma redefinição simbólica do que seja ser um bengali no Brasil. Há negociações nessa passagem, ligação e separação territorial. O novo espaço exige novas associações; é outro espaço público reterritorializado em razão das conveniências territoriais. Nesse horizonte, capitais simbólicos e referências culturais e relacionais passam a se recompor em novas “modalidades de ação” (Bourdieu, 1998).

Sabemos que os horizontes de afetividade são complexos; se os pais e filhos ficaram alguns anos separados, mundos paralelos foram se constituindo, socializações não esperadas ou não programadas também se construíram. Percebemos que a família é central para os bengalis, a sua dimensão transnacional revela ser desconhecida, mas que possui eficácia no mundo globalizado; é relacional na dimensão da distância. O telefone celular territorializa as ligações no espaço de destino e liga as famílias de uma parte e outra das fronteiras; vínculos flexíveis e dispersos. Como diz Sassen, “o local se consolida num mundo que se globaliza” (2008, p. 211) pelas tecnologias da informação. Nessa dimensão de famílias unidas e dispersas há uma redistribuição de papéis de gênero, de chefe de família, entre pais e filhos, pais em países diferentes e filhos no lugar paterno (esferas socioespaciais das famílias); há ligações aparentemente invisíveis que se manifestam em horizontes identitários, religiosos, parentais, de pertencimento a uma comunidade, as quais, pragmaticamente, asseguram a realização do projeto migratório de imigrantes em espaços de origem e de destinos.

Conclusões

As migrações revelam, atestam, apelam e dinamizam mudanças em vários âmbitos, mas, em especial, nas formas de integração social e nos pressupostos do desenvolvimento econômico mundial. Para muitos, a emigração passa a ser a válvula de escape (Bauman, 2003) de grandes contingentes populacionais empobrecidos e subalternizados em outros horizontes e que, através dela, idealizam um mundo diferente, porém, muitas vezes, vivenciando situações constrangedoras e precarizantes. Devemos considerar que os movimentos migratórios internacionais constituem a contrapartida da reestruturação territorial planetária que, por sua vez, está relacionada à reestruturação econômica produtiva em escala global.

Vimos que bengalis migram vinculados em laços territoriais, religiosos, bem como utilizando canais mais ou menos comuns nos espaços da viagem, na obtenção dos trabalhos, na possibilidade dos vistos de permanência temporária, etc. Integrados entre si, eles valorizam a família, os rituais religiosos, idealizam retornar ao seu país com melhores condições em relação às de quando partiram. Para eles, a migração tende a continuar produzindo o sonho da mobilidade social, de desejos de mudar de vida, de alterar alguns valores.

Percebemos situações em que imigrantes desenvolvem processos transnacionais, tanto através de negócios, de viagens, de relações familiares, afetivas e parentais, quanto no horizonte financeiro (remessas) e no âmbito religioso. As remessas, por exemplo, revelam e corporificam múltiplos processos e vínculos sociais entre territórios, bem como exteriorizam a identidade e a continuidade do sujeito imigrante. Nesse âmbito transnacional, bengalis passam a ser um grande recurso econômico para os países e regiões de origem.

Pelas entrevistas, vimos que bengalis desejam permanecer por um bom tempo no Brasil em razão das dificuldades de encontrar trabalho em seu país e pelo alto desembolso dispendido para chegar até o local de destino. Os limites econômicos da família fazem com que o pai, mesmo à distância, possa ainda manter certa autoridade e, com isso, ganhar respaldo e afetividade do grupo. Eles integram-se pouco na sociedade maior; isso é fruto também da integração da sociedade em si mesma. Sem dúvida, continuam a existir fronteiras geográficas e simbólicas que produzem o estrangeiro e que definem as diferenças, o pertencimento nacional, do direito de cidadania, os graus de integração e de seleção.

Enfim, de uma forma panorâmica e genérica tentamos esboçar alguns elementos que estão correlacionados com a imigração de bengalis no Sul do Brasil. Enfatizamos que são dinâmicas ainda recentes, como o são os fenômenos migratórios no país de uma forma geral; continuam sendo muito estranhas para ambos, imigrantes e autóctones e, por isso, necessitam de pesquisas para melhor entendermos esse dinamismo presente na sociedade brasileira.

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